Por ;Juci Ribeiro
Voltada para o público adulto, a peça aborda
o silenciamento da voz feminina como metáfora para a fragilidade do poder
Nas
cartas deste baralho,
Na ilusão deste jogo,
Escolho ou sou escolhida,
Sou rainha ou sou cativa?
Myriam Fraga
Adaptado do poema de Myriam Fraga, premiada
escritora baiana, o espetáculo Rainha Vashti foi concebido e produzido
pelo Grupo A RODA e sua estreia acontece no dia 13 de novembro, às 18h30, no
Museu de Arte Moderna – MAM. Ao todo, a temporada terá doze apresentações, sempre
às quintas e sextas-feiras, até o dia 12 de dezembro, sendo que algumas datas
terão sessões às 18h30 e às 20h. Com direção, adaptação e criação das figuras
de sombra a cargo de Olga Gómez, a encenação conta ainda com narração de Rita
Assemany, consultoria de Marcus Sampaio, direção musical de Uibitu Smetak e o
patrocínio da FUNARTE, Governo Federal do Brasil. Os ingressos custam R$ 40 e
R$ 20 (meia-entrada) e podem ser adquiridos pela plataforma Sympla.
A escolha artística do teatro de sombras como
técnica de encenação para Rainha Vashti guarda estreita relação com a
trajetória do Grupo A RODA, um dos poucos no Brasil a trabalhar com essa arte
milenar. Em 2010, por exemplo, eles apresentaram O Pássaro do Sol, justamente
o último espetáculo de teatro de sombras produzido na Bahia, vencedor do Prêmio
Braskem de Teatro. Em Rainha Vashti, a companhia também dá continuidade à
imersão no universo literário de Myriam Fraga (1937-2016) e é uma celebração da
parceria artística de tantos anos e do legado poético deixado pela escritora. O
próprio texto homônimo fora transformado em livro e publicado em parceria com A
RODA, em 2015, com ilustrações de Olga Gómez.
Para Olga, unir teatro de sombra com poesia fará
com que o público tenha uma experiência emotiva bastante singular e potente. “Enquanto
a poesia nos torna sempre mais perspicazes e atentos, o teatro de sombras é uma
arte dedicada aos sentidos, que permite a participação completa do espectador”,
explica a diretora. Rainha Vashti é a expressão coletiva do núcleo de
pesquisa em animação coordenado por ela ao longo de 2025. Trata-se da quarta montagem
do Grupo A RODA que conta com os poemas de Myriam Fraga. “Ainda em vida, Myriam
nos confiou esse maravilhoso poema lírico no qual ela trabalhou por muito
tempo. Chegou o momento de cumprirmos a promessa que fizemos a ela e encená-lo
pela primeira vez, o que é também uma homenagem à memória da poeta”, afirma
Gómez.
Rita Assemany, que dá voz ao espetáculo, aponta
que o público terá um encontro, sobretudo, com a beleza: “a beleza de uma história lúdica e mágica; de
uma experiência que simplesmente pausa no tempo, em um espaço inundado por
sombras e formas encantadoras – por onde navega o barco capitaneado por Olga”.
A atriz se sentiu instigada em se experimentar no palco sem o seu corpo, sem
estar fisicamente presente, e ressalta que, nessa forma inédita de atuar, ela
não faz a simples narração da peça. “Eu sou as próprias personagens; minha voz
se adensa e incorpora rei, rainha e concubinas, sopra o fôlego de vida sobre
escravos, sátrapas e profetas”, comemora Rita. Apesar do desafio, o universo
feminino, do qual trata o espetáculo e que ainda é tão atual, faz parte do repertório
dela há mais de quatro décadas.
A música de Uibitu Smetak e Amanda Smetak, pai
e filha, completam a dramaturgia sonora, cuja ideia central teve como inspiração a tradição turca dos makams,
um sistema de escalas que tem sua origem na Pérsia, terra da Rainha Vashti. “Escolhemos
instrumentos como violino, piano e flautas doces, além de uma pequena percussão
com sinos e efeitos elaborados com técnicas como o pizzicato e o ponticello”,
explica Uibitu. Ao mencionar as faixas musicais criadas, ele lembra ainda que
“a trilha, no teatro de sombras, deve ter o tamanho do espetáculo, sem exagero
de sons, pois ela precisa refletir a delicadeza desse formato de teatro”. É
dessa maneira que a música e a sonoplastia conseguem contar a mesma história
narrada.
Com duração de uma hora, o espetáculo tem quatro atores-animadores por
trás de uma tela de lona com seis metros de base e três metros de altura: Arthur
Lustosa, Diego Neres, Hannah Pfeifer e Paulo Borges. É nesse anteparo que eles
projetam as 150 figuras de sombra desenhadas por Olga Gómez. Ao encenar Rainha
Vashti, o Grupo A RODA espera contribuir efetivamente para o
desenvolvimento do teatro de sombras no Brasil, para o ainda urgente debate acerca
da questão de gênero e para o estímulo à apreciação da arte poética.
O ENREDO
O enredo da peça narra a saga da lendária
rainha Vashti, esposa do rei Ashuero, a partir de um relato bíblico.
Considerada a mulher mais bela do império persa, Vashti ousa desobedecer à ordem
do monarca para dançar na frente dos convidados em um banquete real e é, para
sempre, banida da corte. A sua recusa é vista por muitos como um ato de
integridade e coragem diante do poder supremo do rei, embora com consequências
pessoais severas. O conselho dado pelos governadores persas para banir Vashti
tinha como objetivo reforçar a autoridade dos homens sobre as mulheres em todo
o império, mas, ironicamente, o efeito não foi exatamente o calculado. O
grito de Vashti, assim, lança um esboço de rebelião à vida da época, fazendo
tremer as bases do reinado. O espetáculo fala do silenciamento da voz feminina
como metáfora para a fragilidade do poder.
A DIRETORA
Olga Gómez é artista plástica e diretora da Companhia A RODA. Com
formação em Belas Artes, atua como escultora, professora, pesquisadora e
encenadora de formas animadas. Nascida em Buenos Aires, Argentina, escolheu
Salvador, capital da Bahia, como lar em 1986. Desde 1997, lidera a Companhia A
RODA, sendo responsável pela criação e construção de suas figuras e bonecos
articulados. Sua influência vai além das fronteiras do grupo, colaborando com
outros diretores e participando de mostras artísticas de artes visuais e de
teatro, nacionais e internacionais. Destacam-se suas premiadas montagens “A
Cobra Morde o Rabo” e “O Pássaro do Sol”. Em 2008, dirigiu o espetáculo “Amor
& Loucura”, que viajou por 15 estados e 55 cidades brasileiras. Sua mais
recente peça é “Luiz e a Liberdade”, espetáculo de 2017 que utiliza fantoches
para contar a história do abolicionista baiano Luiz Gama. Ao longo de quatro décadas, produziu desenhos, bonecos, brinquedos, sombras e cenografias
de espetáculos.
A COMPANHIA
A Companhia A RODA foi fundada em Salvador, Bahia, no ano de 1997 e,
desde então, difunde o teatro de animação de bonecos e o teatro de sombras por
meio de oficinas e da criação e produção de espetáculos. A companhia leva aos
palcos um teatro eminentemente visual, que fala a todas as idades, tanto pela
força plástica de seus protagonistas esculpidos em madeira quanto pela temática
de apelo mitológico e raiz popular. Sob direção artística de Olga Gómez, A RODA
já apresentou o seu repertório atual de cinco espetáculos em importantes
mostras artísticas no Brasil e no exterior. Por duas vezes participou do
projeto Palco Giratório do SESC, circulando por mais de 60 cidades, ministrando
oficinas e apresentando-se com os espetáculos “Amor & Loucura” (2008) e “O
Pássaro do Sol” (2015). A companhia foi contemplada com prêmios locais e
nacionais de teatro, entre eles o Braskem de “Melhor espetáculo Infantojuvenil”
de 2010, com o espetáculo “O Pássaro do Sol”.
SERVIÇO ESPETÁCULO RAINHA VASHTI [TEATRO DE SOMBRAS]
Temporada: 13 de novembro a 12 de dezembro de 2025
Dias: 13, 14, 21, 27 e 28 de novembro e 4, 5, 11 e 12 de dezembro
(quintas e sextas)
Horários: 18h30 (todos os dias) e 20h (sessão extra nos dias 21 de novembro, 11
e 12 de dezembro)
Local: Museu de Arte Moderna da Bahia - MAM [Solar do Unhão]
Entradas: R$ 40 (inteira) e R$ 20
(meia-entrada)
Vendas: www.sympla.com.br/evento/rainha-vashti-a-roda-teatro-de-bonecos/3186105
Realização: FUNARTE – Ministério da Cultura –
Governo Federal

